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Terça-feira, Outubro 18, 2005



Ontem evoquei um fato de alguns anos atrás de violência entre torcidas organizadas. Pois não é que acabou de acontecer outro exemplo de estupidez humana envolvendo torcedores? Está na hora de deixar a barbárie de lado, pelo menos um pouco, e dizer sim à civilização, nem que seja pra variar.


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Segunda-feira, Outubro 17, 2005



Mais contribuições para a reforma política: estão proibidas a chapa epifânica e a candidatura de apelido.

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Está difícil falar de coisa e tal, a política impõe a pauta. Então, vamos falar da reforma política. Agora que a oficial foi novamente pro ralo (êta lugarzinho onipresente!), vou dar a minha contribuição informal à mesma, assim, quando a preterida voltar à baila, quem sabe o baixo e o alto clero olhem com carinho para os meus palpites. São apenas duas sugestões. A primeira, talvez a de efeito mais imediato, é o fim da militância partidária. Claro que todo mundo vai poder continuar tendo suas simpatias, suas adesões convictas, seus amores políticos sinceros. Falo da militância embandeirada, de camiseta, de galhardete, de porrete e soco-inglês. Aquela que facilmente passa de claque a falange. São em suas fileiras que os quadros, digamos, exóticos são recrutados. Minha inspiração pra isso foi um fato que ocorreu há poucos anos em São Paulo, durante uma partida de futebol. A pancadaria comeu feio entre os torcedores, com gente ferida e até morta. As autoridades foram obrigadas a proibir a entrada das torcidas organizadas nos estádios paulistas. Os verdadeiros adeptos do futebol acataram de bom grado a norma.
A segunda sugestão, menos prática e mais conceitual, é o voto de desconfiança. Não se trata, aqui, de apologia ao voto nulo, e sim de uma medida acautelatória. Devemos votar sempre com um pé atrás, mesmo no melhor. Diz a lei que todos são inocentes até que se prove o contrário. Acontece o seguinte: há um personagem de quadrinhos chamado Calvin, um garoto terrível. Numa de suas historinhas, sua mãe corre atrás dele feito louca, tentando aquietá-lo. Lá pelas tantas, desaba sobre uma poltrona, exausta. Calvin, feliz da vida, exclama: pra ter uma boa noite de sono, ela vai ter que fazer por merecer muito!


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Quinta-feira, Outubro 13, 2005



Finda a extração de pau-brasil, de esmeralda, de diamante, de ouro, uma outra lavra de recursos inesgotáveis ainda garante a permanência do extrativismo de riquezas em nosso país. Trata-se do exercício do poder. É simples. De tempos em tempos, um grupo recebe o direito (renovável) de explorar a fundo quantas jazidas a sua eficiência permitir. Acontece o seguinte: como um dos concedentes desse direito - e aqui louvo o nosso altruísmo de não obter lucro algum - eu tenho notado a extrema irritação com que os extrativistas reagem ao serem observados na prática do próprio ofício. Ora, estão fazendo o que sabem fazer. Havia num sítio que eu freqüentava em Petrópolis um cachorro chamado Tagore, da raça pastor alemão. Esse cão, além de inteligentíssimo, era um gentleman. Pois bem. Um dia, numa atitude desrespeitosa, resolvi espioná-lo em sua refeição. Lá estava o animal tranqüilo, sobre sua gamela, lambendo o último vestígio de comida. Ao notar minha presença intromissora, rosnou desabridamente. Claro que saí fora. Apesar de ter nome de poeta indiano, um cão é sempre potencialmente feroz, ainda mais nos seus direitos. Mas o bicho era mesmo especial. Alguns minutos depois, estando apaziguada a sua natureza, Tagore veio me procurar, rabo entre as pernas, choramingando, e me disse com todas as letras caninas: "me perdoa, me perdoa, juro que foi sem querer". Grande Tagore.


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Terça-feira, Outubro 11, 2005



Houve no texto que postei ontem um corte abrupto entre Chagall e o Rio. Acho que faltou uma intermediação mais cadenciada na analogia entre a importância da cidade de Vitebsk para o pintor e a importância da cidade do Rio de Janeiro para os cariocas. Deixei o gancho um pouco no ar e fui logo falando do Rio, daquilo que considero um dos passos fundamentais e prementes para a solução de seus problemas. Em todo caso, penso ter dado o recado. Continua valendo o escrito.


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Segunda-feira, Outubro 10, 2005



Acabei de passar os olhos sobre o folder da mostra de gravuras de Marc Chagall no museu do Paço, aqui no Rio, em 1987. Costumo guardar os folhetos das exposições que me agradam. Arrumando minhas papeladas, foi uma grata satisfação rever esse material. Isso me fez pensar numa presença constante na obra do pintor russo, a sua Vitebsk natal. Acontece o seguinte: não fui morar no sul da França e nem sei pintar. Só sei que o quadro em que a minha cidade se encontra não me agrada. Um Rio de Janeiro exilado, submetido a um estado que lhe é alheio, numa moldura inadequada à paisagem carioca. Cadê o plebiscito da desfusão?


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Sexta-feira, Outubro 07, 2005



Em toda forma eficiente de expressão, seja escrita, cênica, plástica ou musical, há um desejo inconfesso de manter sob controle a audiência, persuadi-la, acalmá-la mesmo. No fundo, no fundo, estamos apenas dizendo: calma, vai passar, espere um pouco, não é bem por aí, vê por esse ângulo, tenta agora esse outro, respire fundo, assim, assim, assim, nana neném. Os políticos também sabem causar essa hipnose. Acontece o seguinte: se formos nos submeter à experiência deles, devemos antes salvaguardar as coisas que mais estimamos. Consciência, parece que não estão a fim de pegar, não.


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Quinta-feira, Outubro 06, 2005



No dia 23 tem referendo sobre o comércio de armas. O que sei sobre armas? Tão somente o óbvio: elas matam. Jorge Luis Borges, em um conto irretocável, narra a história de dois punhais nas mãos de dois rixentos, numa província qualquer da Argentina. Ambos morrem sem saber que suas desavenças foram desculpas para que a rivalidade existente entre aquelas armas cumprisse mais uma vez o seu destino.


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Quarta-feira, Outubro 05, 2005



A sucessão presidencial começou, embora o cenário político ainda esteja bastante confuso. Acontece o seguinte: na verdade, só temos elementos claros para falar de... uma recente história de amor. Nela, o marido fez tudo para conquistar a sua esposa. Seus amigos deram a maior força. Todos diziam, era voz geral, que foram feitos um para o outro, que somente ele a faria feliz, que dessa vez a coisa ia. E foi. De repente, não mais que de repente, o consorte declara: não sei se estou apaixonado pela idéia de continuar apaixonado. Pois é. E a pobrezinha, como é que fica?

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Coloco o papel na máquina, fustigo as teclas, cheio de som e fúria. Essa imagem pretérita do ato de escrever é testemunha da relação passional que a velha máquina de escrever favorecia, o embate físico com as palavras, as engrenagens mecânicas resistindo aos mais exímios na datilografia dos textos. Hoje, basta esbarrar no teclado para que o cursor do computador dispare. Dois mundos. Mas por que estou falando nisso? Já sei. Tenho sentido falta das altercações, das veemências, das indignações verdadeiras, das indignações falsas, das questões de ordem e de outras tantas querelas que contribuíram para os altos índices de audiência das CPIs. Não creio que estejam cansados. Acontece o seguinte: depois de algum tempo na função, fazer pizza se torna enfadonho para os pizzaiolos.


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Terça-feira, Outubro 04, 2005



"Viver é ir entre o que vive"
João Cabral de Mello Neto

O Festival do Rio termina agora, dia seis. O certo é falar das coisas no seu começo e não no fim. Acontece o seguinte: não fui a nenhuma sessão. Deveria ter ido, mas não fui. Razões outras. Não vale a pena enumerá-las. De qualquer modo, vou tentar saldar a dívida com esse evento tão importante para a cidade. Ontem, vinha eu andando calmamente - aliás, nem sei se calmamente - pela rua Senador Vergueiro, quando passei em frente ao cine Paissandu, uma das salas da mostra. Parei. Lá dentro já havia um bom público, faltavam vinte minutos para a próxima sessão. Entro e a projeção começa. Explico. Disse que não assisti a nenhum filme, e realmente não assisti. Só que, nessas ocasiões, o filme acontece dentro e fora da sala. Eis aí a principal riqueza e atração de um festival: essa dupla exibição. Então, ali, entre as pessoas, uma felicidade foi passando em minha alma, uma felicidade com gosto de pipoca e refrigerante, com cara de gente bonita, gente diversa, gente curiosa. Gente que faz um auê, dá um rolé, gosta de um caô.


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Segunda-feira, Outubro 03, 2005



Domingo eu estava em outra. Nem a chuva dissuadiu-me. Primeiro, verifiquei as rodas do carro. Perfeitas. Mal ultrapassei a prateleira da entrada, ouvi o alto falante anunciar a oferta: café (...), pacote de 500g, a R$ 3,87, mas só nos próximos cinco minutos. Correria geral. Daí a importância do carrinho deslizar bem, não travar. Essa epopéia dominical me deixou exaurido. Hoje, porém, estou refeito, e quero começar a semana olhando um pouco à frente, com uma inofensiva questão: quem é o principal prejudicado com a aparição da figura de Marcos Valério no cenário nacional? José Serra, sem dúvida. O crânio luzidio do empresário mineiro tornou-se, no imaginário popular, uma espécie de logotipo de alguma ilicitude. Uma simples calva em qualquer um de nós já enseja uma comparação, um gracejo preconceituoso. A essa altura dos acontecimentos, FHC ri do correligionário chargeado e penteia vaidosamente sua cabeleira. Com todo o cuidado para que nenhuma caspa indesejável saia no pente.


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Sábado, Outubro 01, 2005



"Porque hoje é sábado", diz o poeta Vinícius de Moraes. Abro um parêntese: tive vontade de escrever poetinha, como ele se definia e os amigos o tratavam, mas me pareceu um enxerimento despropositado, uma intimidade tardia. Fecho o parêntese. Acontece o seguinte: estou tentado a não falar de nada, porque hoje é sábado. E por falar em tentação, é sabido que todos nós temos um anjo bom e um anjo mau, que nos buzinam, aqui e ali, seus conselhos lapidares. Para os mais inocentes, essa luta tutelar pode ser terrivelmente dramática. "Rouba, rouba", diz um. "Agora não, estão olhando", diz o outro. Convenhamos, certas inocências sofrem pra chuchu! Pronto, lá se foi esse papo de sábado. "Dando os trâmites por findos, há a perspectiva do domingo".


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