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Segunda-feira, Janeiro 30, 2006



Estou me repetindo. Se ainda não estou, vou me repetir com certeza. A razão plausível, contrária à minha vaidade, talvez resida na falta de maestria. No entanto, devo ter direito a crer em causas externas que determinam meu ritmo. Acontece o seguinte: o fato é que o cenário no qual este blog faz suas performances continua o mesmo mural repleto de borrões. Enquanto isso, espremo a pouca imaginação que tenho e resisto às vozes que me aconselham a falar de orkut, de big brother, da minha vida e da vida alheia. A tentação é grande e este caminho é repleto de atrações.


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Sexta-feira, Janeiro 20, 2006



A cidade do Rio de Janeiro repete simbolicamente a imagem clássica de São Sebastião: as mãos sobre a cabeça, atadas a um tronco. Duas flechas estão cravadas em seu peito e uma terceira em sua perna. A primeira das flechas desferidas contra a cidade foi em 1960, com a transferência da capital do país para Brasília; a segunda, em 1975, com o decreto ditatorial que acabou com a sua condição de cidade-estado. As agressões que vem sofrendo desde então podem ser representadas pela flecha na perna. Caso sobreviva às duas primeiras flechadas, corre ainda o risco de manquejar definitivamente. Assim, de mãos atadas, sem dispor mais de autonomia, a cidade tem sido uma vítima fácil. Hoje, dia de seu padroeiro, o Rio deve pedir ajuda ao santo para liberta-se desse martírio. A restauração da autonomia da cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro seria um verdadeiro milagre para os cariocas.


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Segunda-feira, Janeiro 16, 2006



Não vou entra nessa polêmica da cultura, aliás, do ministério da cultura. Meu palpite é que fatura essa parada quem melhor exibir "ares" de razão, pouco importando se tem razão realmente. Acontece o seguinte: o personalismo é o que interessa, é o que vale, é o que conta.


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Sábado, Janeiro 07, 2006



Suponhamos que alguém queira, a partir da própria paisagem, olhar uma paisagem vizinha. Melhor ainda: que queira olhá-la com o mesmo olhar que o vizinho a vê. Resta-lhe, então, pedir ao vizinho os olhos emprestados. O sucesso da empreitada é parcial: nosso personagem até consegue ver a paisagem alheia, mas com um indisfarçável mal-estar. Os olhos, que não são os seus, não se adaptam ao formato do seu rosto. Pior: agora, ao contemplar-se, vê a si mesmo de forma estranha e corre o risco de nunca mais se reconhecer. Essa não é a história contada no romance Meu nome é Vermelho, do escritor turco Orhan Pamuk. Mas poderia ser. Não vou dizer como é a história, claro. Estou apenas servindo uma analogia como isca. Leiam o livro. Posso adiantar o básico: fala de amor, morte, oriente, ocidente, religião, arte e identidade cultural. É um livraço. A editora é a Companhia das Letras.


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Quinta-feira, Janeiro 05, 2006



Estamos em ano eleitoral. O número de votos brancos e nulos vai ser grande. Há até um movimento por aí para não se votar, e depois pagar a multa, que não é tão cara, ao T.R.E. Vamos ver, vamos ver. Minha sugestão, por hora, é que a gente esqueça um pouco a eleição pra presidente e comece a se concentrar nas eleições para o congresso. As eleições para o executivo sempre atraíram mais a atenção de todos, crédulos que éramos na capacidade de decisão, ação e vontade de trabalhar de nossos governantes. Paciência. Então, o jeito é marcar firme deputados e senadores, chegar junto ao parlamento. É lá que brota a fina flor da base do governo e da oposição ao mesmo. Licitamente regado, esperamos que os jardineiros salafrários fiquem longe dele. Vocês já devem ter notado que estou seguindo um roteiro positivo, apostando no melhor dos cenários. Em todo caso, estaremos nos educando para um futuro e quiçá promissor sistema parlamentarista. Claro que esse papo todo de votar com consciência e escolher os melhores é bem velho. Mas antes de prosseguir, quero ser honesto: em matéria de credenciais e boas intenções, poucos chegarão a ocupar o lugar que o PT até então ocupava. Ou construíra. Agora, melhor é não se encantar tanto com os portadores Da Verdade e procurar aqueles dispostos a simplesmente suar a camisa. De preferência, sem bolso. Nessa batalha hercúlea, a internet pode ser uma grande aliada. Explico. Ao receber um material de campanha, procure logo saber se vem como o e-mail do candidato. Se não, devolva ou arremesse na primeira lixeira que encontrar. Mas lembre-se que não vale o e-mail do partido, tem que ser o do candidato. Depois, ao contatá-lo, não pergunte o que o candidato acha sobre isso ou aquilo. Diga o que VOCÊ acha disso ou daquilo e o que ele pretende fazer a respeito dessas suas convicções. A resposta que se deve esperar do candidato é se ele concorda ou não com VOCÊ. Não se trata de uma relação professor/aluno e sim de representatividade. Conforme as informações forem sendo trocadas, pode ser que comece a evoluir algumas afinidades ou a ausência delas. Mas nada de rapapés ou juras de fidelidade nessas correspondências. A fidelidade é um problema do candidato e do partido, não do eleitor. Este é democraticamente livre para ser infiel, sempre que assim desejar, em qualquer eleição vindoura. Crédito maior do que esse, só no caixa dois.


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Terça-feira, Janeiro 03, 2006



A objetividade nem sempre é um imperativo nos textos. Nem na vida, talvez. Há um infinito mundo de despropósitos benignos e devemos dedicar a ele a mesma energia que empregamos em coisas conseqüentes e claras. Dependendo da ocasião, martela-se um prego ou se joga uma pedrinha na água para que resvale com graça na superfície. Acontece o seguinte: a reta pode ser a distância mais curta entre dois pontos, mas a curva é com certeza a distância mais bela. Das duas, uma: ou acabei de explicar melhor o perfil deste blog ou comecei a gravitar no universo da auto-ajuda. Só de pensar nessa última hipótese, a palma da minha mão já começa a coçar.


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