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Segunda-feira, Julho 31, 2006



Qual é a cota mínima de mortes necessária para um cessar-fogo imediato no Oriente Médio? Israel não quer nem ouvir falar no assunto. Bush, que como presidente dos Estados Unidos manda e desmanda no conselho de segurança da ONU, prefere falar em paz duradoura para a região ao invés de cessar-fogo imediato. Seria um requiescat in pace?


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Domingo, Julho 30, 2006



Não vi quando passou no cinema, mas vi ontem, em dvd, o documentário "Meu tempo é hoje", sobre Paulinho da Viola, direção Izabel Jaguaribe, roteiro Zuenir Ventura. Está lá o compositor com sua música, sua gente, seus amigos, sua oficina de marcenaria na qual ensaia seus dotes de luthier. Um artista íntegro, essencial. Nada de rapapés, caras e bocas, paramentos ou histórico de geniais entrevistas. Jean Cocteau disse que a personalidade artística é a pior coisa para um artista. Desse mal o nosso grande sambista não sofre. Paulinho é diferente. Se olha para o próprio umbigo, não o faz além do tempo necessário. Mira, isso sim, com talento e elegância os nossos ouvidos.


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Sexta-feira, Julho 28, 2006



As pessoas que não votam no Garotinho de jeito algum, e que pretendem votar na Heloisa Helena para presidente, devem estar dando tratos à bola depois que o político campista declarou o seu apoio à candidata. Política é chão escorregadio.


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Quarta-feira, Julho 26, 2006



Caravançará é uma palavra sonora, bonita e evoca paisagens longínquas, exóticas. Não há quem não tenha a sua palavra mágica. Às vezes, mais de uma. Através delas experimentamos - experenciamos, diriam os pernósticos - algumas lembranças. Galalite, por exemplo. Nos tempos de campeonato de futebol de botão, um beque de galalite era garantia de zaga instransponível. Por isso, no meu juízo, galalite significava poder. Mas caravançará me traz à mente uma história crucial, com protagonista e antagonista. Acho que foi no primeiro ano do ginásio. O professor nos pediu que citássemos uma palavra diferente. Na minha euforia, levantei a mão e disse: ca-ra-van-ça-rá. Súbito silêncio. O mestre cortou rápido: não vale palavra que não se saiba o significado. Acontece o seguinte: eu sabia, quem não sabia era ele, percebi pelo piscar de olhos, pelo tremor dos lábios. Mas o show tem que continuar. Pra sua sorte, um outro aluno sacou rápido o manjadíssimo inconstitucionalissimamente. Enfim a normalidade voltou à sala de aula e o professor pôde discorrer, seguro, sobre prefixo, sufixo, radical, vocábulo primitivo, vocábulo derivado, blá, blá, blá. Penso que até hoje a minha aventura com as palavras é essa luta - melhor dizendo, essa tensão - entre caravançará e inconstitucionalissimamente, entre o inaudito e o razoável.


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Quarta-feira, Julho 19, 2006



Por que será que os países, os que mandam realmente, estão se referindo aos ataques de Israel contra o Líbano apenas como uso desproporcional de força? Claro que covardia é um termo carregado e politicamente incorreto. Sem dúvida, existem outros condicionantes para que a admoestação dos grandes seja tão eufemística: a presença do Hezbollah no sul do Líbano e a aludida ameaça atômica iraniana. Porém, há mais uma razão inquietante: os países que ditam a política internacional já utilizaram, generosamente, o uso desproporcional de força em algum momento da história. Ou utilizam ainda. Infelizmente, acontece o seguinte: a ONU se tornou uma organização das nações com telhado de vidro.


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Terça-feira, Julho 18, 2006



É grave a epidemia. O número de sanguessugas pode subir de 57 para 100. Segundo especialistas, no dia primeiro de outubro próximo a infestação deve atingir o seu auge, com os pequenos animais tentando prolongar o seu ciclo vital por mais quatro anos. Exangue e combalida, só uma transfusão completa salva a sociedade brasileira. Mas cadê doador pra isso?


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Sexta-feira, Julho 14, 2006



Os livros de bolso brasileiros melhoraram muito. Parece que ficou pra trás aquela fase do leve um e fique com dois. Às vezes três, ou mais. O desmembramento do livro de bolso era uma questão de tempo, de pouco tempo. Aqui em casa, por exemplo, volta e meia apareciam folhas no chão, debaixo da escrivaninha ou atrás da estante. O que se economizava no preço da edição de bolso, gastava-se em fita adesiva. Sem falar na luta corporal para recompor as páginas todas. A melhora não foi só do material impresso, a oferta de títulos de qualidade também melhorou muito. Dos clássicos universais à moderna literatura brasileira, encontra-se de tudo. Só não digo a preço de banana porque seria uma banalidade. De bolso, por sinal.


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Quinta-feira, Julho 13, 2006



Ninguém some. Quer dizer, claro que some, desde que o mundo é mundo. Tô falando de outro tipo de sumiço, o puf! Fulano sumiu do mapa. Todos protagonizamos, com bom ou mau desempenho, aparições e desaparições. Eu mesmo, digo sem vergonha alguma, pratico às vezes esta nobre arte ninja. Mas seria eu mesmo quem some ou, esse outro, o que escreve este blog? Não sumi recentemente, com certeza continuo onde estou, na cidade do Rio de Janeiro. Mas olhando a data da última postagem, a certeza de presença começa a se desacertar, como se existisse somente o Homero que sumiu do acontece o seguinte por dez dias. Se não noto a minha falta, continuaria sumido por sei lá mais quanto tempo.


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Segunda-feira, Julho 03, 2006



Com dezesseis anos, meu filho vota pela primeira vez em outubro. Essa é uma eleição estranha, do pós-lama, dos escândalos banalizados. Não sei bem o que lhe dizer, como opinar diante da evidência dos fatos. Apenas conversamos de maneira espontânea e livre, sem o proselitismo de cartilhas e luminares. Mas como pai, sinto o apelo nostálgico do conselho. Conselho até pra mim mesmo. O que fazer? Continuidade? Volta ao passado? Voto nulo? Neo-utopia? O tom de cor de qualquer tecido tende à degradação com o tempo. O das bandeiras dos partidos mais rapidamente. O quadro confuso que se apresenta pode conduzir os que estão votando pela primeira vez a uma incurável desconfiança, a uma maturação política desencantada.


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Sábado, Julho 01, 2006



E agora, José?
A festa acabou,
o povo sumiu,
a noite esfriou...


Carlos Drummond de Andrade


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